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OLHO MÁGICO

A coragem de criar
meu mundo
para não esquecer
a vida real.
Dias de susto,
amor, história e luta.

 

Mas esta é uma outra história.

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QUARENTENA

Em que ano estamos?
Para onde foi o meu futuro?
Onde é que mora Deus?

Não era uma vez
o trem da história.

Na sombra do mundo perdido,

no vasto mundo de Drummond,

faz escuro mas eu canto.

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NÃO ERA UMA VEZ

Os comandantes,

empreiteiros da morte,

cavalos da República,

querem me enlouquecer.

O dia em que o povo ganhou

educação, cultura, cidadania,

os miseráveis subversivos,

caminhando contra o vento,

no caminho dos sonhos.

A desordem

volta para casa.

Viver é lutar

fora da trilha.

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EU, BRUXA

Luana adolescente, lua crescente,

a filha do alquimista,

caraminholando segredos perigosos

de mãos dadas com a natureza:

insetos, vacina de sapo, dentes de rato,

pele, cabelo e unhas.

Riquezas da terra, espumas flutuantes,

ouro, fogo e megabytes.
 

Os prêmios?

As quatro penas brancas,

o velho pássaro da lua.

De olho nas penas,

bruxa da noite!

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A METAMORFOSE

Lúcio vira bicho:
coração de onça,
caninos brancos.

Uma alegria selvagem,
o lugar do outro.

Espelho, espelho meu,
quando crescer quero ser hipopótamo.

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Som de um caramujo
caminhando contra o vento.
O sopro na argila.

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RECORDAÇÃO MORTAL

Enquanto a noite não chega,

enquanto meu amor não vem...

Um ladrão debaixo da cama!

Depois da luta,

meu primeiro assassinato,

o crime mais que perfeito.

Por que matei Rocky Lane?

Meninos, eu conto:

é tudo mentira.

Mamma mia! Tá louco!

Amarga herança de Leo.

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A grande ilusão: 

a rainha estrangulada

brincando de roda.

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PRIMEIRAS LIÇÕES DE AMOR

Carrego no peito
a coragem de criar
minha primeira paixão,
longe como o meu querer.

Me dá um beijo
de amora e amor,
cochichos e sussurros,
trapaças e carícias.

Vamos aquecer o sol
antes que anoiteça.
Depois, o silêncio.

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BRUTALIDADE JARDIM

Dentro da floresta,
Ventania brava.

As sombras móveis,
Figuras traçadas na luz,
Mastigando humanos.

Sangue fresco
A teus pés.

O próximo da fila
Vai lá e faz
Aquilo que ninguém vê.

Um objeto cortante,
Antes de nascer o mundo.

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HISTÓRIA DE UM PRIMEIRO AMOR

Coração aos pulos,
a língua de fora,

cascata de cuspe,
O suor e a lágrima,

Olhos de carvão,
Asas da noite.

Uma mente inquieta,
Ouro dentro da cabeça,
A metamorfose.

Confissões de adolescente,
Segredos perigosos,
A fúria do mundo.

Por que tanta pressa de crescer?
Amar, verbo intransitivo

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Pomba enamorada,

a mulher de trinta anos:

coração de onça.

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A FELICIDADE É FÁCIL

Trinta e poucos,
quarenta
livros e telas.
Os filmes da minha vida.
Turmas do prédio, da rua e do bairro.
A doce vida na Úmbria,
a onda que se ergueu no mar,
até o fim.
Paz traz paz.

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QUE MISTÉRIO TEM CLARICE?


Meninos, eu conto,
meninos, eu vi...

Olhos de pedra,
olhos de carvão,
os lábios úmidos de Marylin Monroe.

Do outro lado,
uma mulher no escuro:
sombras de julho,
becos da memória,
uma aventura no sonho.

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POR QUE O CÉU É AZUL?

Restos de arco-íris,
poeira de ouro,
varinha de condão,
lição das horas,
ilusões perdidas.

A reunião dos planetas
antes que anoiteça.

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AMOR DE CAPITU

A menina dos olhos de ouro
junta, separa e guarda
corações partidos,
teimas e birras,
trapaças e carícias.

Dona Casmurra e seu tigrão.

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Fala, amendoeira.
A palavra mágica,

as palavras que ninguém diz: 

amar se aprende amando

(só com lombadas de
Carlos Drummond de Andrade)